À primeira impressão, “Era uma Vez na Anatólia”, aparenta uma normal (?!) investigação criminal nas estepes turcas.

Viaja-se em ambiente nocturno e masculino, erraticamente, na busca de um cadáver escondido. A escuridão e a imensidão do espaço transforma a investigação num espaço de intimidade em que vão surgindo algumas confidências e memórias que nos mostram um pouco do interior de cada um.

Com o passar dos longos minutos, longos e lentos,  começa a perceber-se que a busca de um corpo é um pretexto. Um pretexto para colocar como denominador comum, a todas as personagens masculinas que embarcam nesta viagem lúgubre, as mulheres. A forma como as mulheres nos tratam, como nos marcam e como para elas olhamos.

A viagem pelo deserto, pelas memórias e pelas angustias vai revelando a forma implacável como a beleza da mulher assalta um homem, a dureza maternal com que nos tratam as esposas, a forma violenta como por vezes procuram vingar as suas dores, a disciplina férrea com que preservam os seus segredos e a forma melancólica e doce com que se esculpem nas memórias masculinas.

Um belo filme que só se revela plenamente algumas horas depois de terminada a sessão.

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