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Guardo com estima nas minhas memórias um conto que se apresentava no livro de Língua Portuguesa do 5º ano. Era “A Princesa e a Ervilha” de Hans Christian Andersen.

Era uma vez um príncipe que queria casar com uma princesa — mas tinha de ser uma princesa verdadeira. Por isso, foi viajar pelo mundo fora para encontrar uma, mas havia sempre qualquer coisa que não estava certa. Viu muitas princesas, mas nunca tinha a certeza de serem genuínas havia sempre qualquer coisa, isto ou aquilo, que não parecia estar como devia ser. Por fim, regressou a casa, muito abatido, porque queria uma princesa verdadeira.

Uma noite houve uma terrível tempestade; os trovões ribombavam, os raios rasgavam o céu e a chuva caía em torrentes — era apavorante. No meio disso tudo, alguém bateu à porta e o velho rei foi abrir.


Deparou com uma princesa. Mas, meu Deus!, o estado em que ela estava! A água escorria-lhe pelos cabelos e pela roupa e saía pelas biqueiras e pela parte de trás dos sapatos. No entanto, ela afirmou que era uma princesa de verdade.

— Bem, já vamos ver isso — pensou a velha rainha. Não disse uma palavra, mas foi ao quarto de hóspedes, desmanchou a cama toda e pôs uma pequena ervilha no colchão. Depois empilhou mais vinte colchões e vinte cobertores por cima. A princesa iria dormir nessa cama.

De manhã, perguntaram-lhe se tinha dormido bem.

— Oh, pessimamente! Não preguei olho em toda a noite! Só Deus sabe o que havia na cama, mas senti uma coisa dura que me encheu de nódoas negras. Foi horrível.

Então ficaram com a certeza de terem encontrado uma princesa verdadeira, pois ela tinha sentido a ervilha através de vinte edredões e vinte colchões. Só uma princesa verdadeira podia ser tão sensível.

Então o príncipe casou com ela; não precisava de procurar mais. A ervilha foi para o museu; podem ir lá vê-la, se é que ninguém a tirou.

Aqui têm uma bela história!

Com o passar do tempo, também nós, vamos colocando edredões e colchões, mas sobre o nosso passado, as nossas memórias e as nossas vivências. Bem mais do que as 40 camadas de prova que ratificaram a princesa da história.

Há noites – e às vezes são dias – em que nos deitamos sobre todas essas camadas geológicas biográficas. Umas mais densas, outras mais finas, outras que correspondem a largos períodos de tempo e algumas somente com alguns dias. Pelo meio de todas essas camadas foram ficando pequenas ervilhas, grandes lentilhas e, um ou outro grão de bico. Muitas vezes pensamos que todas essas leguminosas já foram prensadas pelas sucessivas camadas da nossa história e que fazem parte de recordações longínquas e difusas de um passado, ora distante, ora bem próximo.

Mas não é assim. E não é assim, porque não tem de ser assim. Cada uma dessas ervilhas, lentilhas e, um ou outro grão de bico são partes indissociáveis da nossa história e daquilo que somos e queremos ser. Contrariamente à desconfortável noite que viveu a Princesa, essas coisas “duras” que estão nas nossas memórias, não fazem a despistagem de um estatuto real ou de uma visão sobranceria perante a nossa própria história. Para o bem – quase nunca para o mal – o despertar sobre essas camadas pode apresentar-nos uma nódoa negra esporadicamente mas, e isso sim importante, mostra que temos vivido e que as nossas biografias são uma compilação de silos de leguminosas que fazem parte de nós e dos outros.

Tal como finda o conto, as nossas ervilhas devem ser colocadas num museu. Porque num museu se conserva a história e se zelam pelas memórias.

Sem provimento de memórias, sobretudo sem deferência por elas, dificilmente saberemos que caminho trilhar em direcção ao futuro.

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